13 fevereiro 2018

Cometa


Foi reparando na infinidade do universo, que me deparei contigo. Finito clarão, luz de fogo.

Deixei que me queimasse as pontas dos dedos por teimosia que foge das leis da física, sem lei alguma. Inclinei o corpo em crua solidez, em um piscar de olhos, em um piscar de estrela na velocidade luz.


Sem armadura ou EMU, me negaste a viagem espacial através do teu ser.

Só depois entendi que foste cometa, perdido na órbita pulsante da minha constelação. Fora do meu ciclo, devias ir.


Ardente e breve, apenas me deixo ver-te a olho nu, em solitude, deixando a atmosfera solar.

Riscando o céu, irás longe. Talvez retorne, prefiro não esperar. Brilha, cometa, brilha.
Seja resiliente, astronauta. 

30 janeiro 2018

Ensaio de despedida em tom vermelho


Estou sangrando outra vez, vendo milhares de mim em cacos de um espelho quebrado no chão. Foi sem querer, eu juro! Dessa vez só queria bailar levemente pelo quarto de vestir com meu reflexo em cores quentes e música francesa ao fundo, acariciando os ouvidos cansados de guardar frases clichês que outrora me sangraram em quietude.


Ainda assim me restam infinitas eu em cacos, ainda bem. Quando tudo passa, todos se viram entregues ao cansaço, preciso acertar o passo e rodar sozinha, porque sou intensa e quero dançar até amanhecer.



Sangro porque sou instintiva e porque piso em meu pé na hora da valsa. Sangro porque mesmo em plenitude singular, me dói a ausência do conforto do peito quente e manso, que havia feito ontem ninho em mim.



O convidei para dançar, inclinei-me, estendi a mão. Senti afastando-se, sem olhar para trás. No meio do caminho já havia de ter me apagado. No portão, deve ter suspirado em alivio de sentir-se safo por não mais carregar o peso das minhas mãos sob a tua. Imaginei.



No caminho feito por colmeias de luz gambiarra, te vi de relance, sorrindo com cabelos, ao vento. Leve andar, fazendo poeira ao bater o sapato de cor cru. Sorri também, como quem não espera nada. Mas esperava. Sorri sangrando. Até adormecer.



Acordei, te vi ao meu lado, longe e neutro. Percebi o teu cabelo alinhado ao travesseiro, ruminei a seco as borboletas que queriam voar. Não te toquei, deixei que acordasse e vestisse as roupas geladas pelo sereno da madrugada. Precisava me deixar sangrar ao te ver partir.



Me surpreendi ao sentir-me como gotas de sangue na tua camisa, porque pensei que como no sonho, nada levarias de mim, nem as lembranças. Porém dos teus olhos comprimidos corria uma lágrima. Percebi que teu peito também comprimia-se ao virar até a porta. 



Te arremessei uma das borboletas, você aparou-a na mão e se foi. Agora me sinto estancada, dor plena líquida em estado de ebulição. Apenas eu em mim mesma, com um esparadrapo e a certeza de que tudo vai passar. 



Ficar sozinha já não dói mais, só é vermelho.



07 janeiro 2018

Zumbilândia: O mundo dos desinteressados e exaustos


A um tempo atrás, quando se falava muito em apocalipse zumbi, devido a uma série de tv, acreditava eu que os zumbis não existiam. A figura pós humana em decadência me distraia das reais características dos mortos-vivos. Eu que gosto de procurar significados das palavras e expressões, me deparei com esse:

Zumbi (português brasileiro) ou zombie (português europeu) é uma criatura cujo estereótipo se define, nos livros e na cultura popular, como um cadáver reanimado usualmente de hábitos noturnos,[1] que vive a perambular e a agir de forma estranha e instintiva; um morto-vivo;[2] um ser privado de vontade própria,[2] sem personalidade.


Quantos zumbis você conhece? Você é um zumbi?
Fiquei me perguntando se me tornei um zumbi, uma vez que há dias em que o desanimo toma conta.
Porém em minutos, vieram se arrastando, zumbis em estado sólido e esbarraram em mim. Todos com os olhos secos e sem interesse em nada. NADA. N-A-D-A. Nada nessa vida. Não bastasse, acomodados com isso e sem a mínima percepção do outro, da conexão, da troca.

Desinteressados e exaustos, porque muitos deles disseram já terem tentado mover-se num raio de 7 milhas e caíram, as expectativas já não existem. Uns continuam com os hábitos normais de seres humanos, vivendo assim apenas para pagar boletos e dormir. Outros já entregaram suas vidas nas mãos dos que um dia foram seus responsáveis, mais que agora abraçam a causa pelo amor umbilical. Dói né?

Sentem muito, mas o corpo já não responde. Preferem deixar passar. Deixam tudo passar. Talvez por terem ouvido muito esse conselho no fim de cada dor e terem absorvido tanto, que agora a única coisa que os fazem abrir os olhos seja o passar do tempo. Puxa vida!

O protagonismo pessoal precisa de mãos firmes que puxam rédeas, mesmo quando tudo foge do controle. Aliás, a vida é selvagem e não aceita ser domesticada. Nem sempre o que tiver de ser será. Ainda assim é preciso estar na cadeira de chef, firme e forte, porque quando você para, só você permanece no ponto de espera.

Enquanto você permanece na Zumbilândia, o Universo não para. Ele continua a revelar e ser revelado. A natureza segue em seus ciclos, que nem um apocalipse é capaz de parar por completo.
Tu é teu lugar no mundo. Tomar conta da minha vida? Beleza, mas toma conta da tua também, por favor.

02 janeiro 2018

Retrospectiva da Gratidão 2017 + 4 anos de blog

Olá, estrelas! 2017 foi um ano de muito auto descobrimento, que me permitiu rever muitas coisas, me libertar do que pesava e seguir com o leve. Foi um ano em que me dediquei a natureza e aos astros celestes, de modo que conhecê-los melhor me ajudou a desvendar meus próprios segredos, escondidos em mim. Muita coisa desandou, foi difícil, porém tudo deu certo no final e pude respirar fundo para continuar e recomeçar um novo tempo. Nesse dia 2 esse espaço completa mais um ano. São 4 anos e só tenho a agradecer por minha vida ter se tornado mais poética e resiliente. Obrigada a quem esteve comigo! Bem, listei algumas passagens do meu ano, que não quero esquecer e que foram muito boas. Beijão e FELIZ 2018! Que esse ano seja para nós de muita serenidade e fortaleza.  Um ano muito estrelado e florido para todos!


🌼 Troquei cartas com amizades especiais
🌼 Costurei muito mais
🌼 Aprendi muitas técnicas de modelagem
🌼 Ganhei uma gatinha, a Amélie
🌼 Assisti filmes que queria muito ver
🌼 Passei metade do ano assistindo Glee (Nostalgia boa)
🌼 Destaque para as séries: Anne With An E e Stranger Things, que me salvaram do tédio
🌼 Conheci muitas bandas/músicas novas e incríveis
🌼 Desvirtualizei uma amizade
🌼 Minhas unhas cresceram e recresceram
🌼 Recebi um diagnóstico de cura de uma doença
🌼 Plantei e cultivei plantas (Aprendi muito com elas)
🌼 A Super Lua de Agosto
🌼 As Estrelas Cadentes de Dezembro
🌼 As vezes que fui em Fortaleza
🌼 Ter ido a praia duas vezes
🌼 Cozinhei melhor
🌼 Passei mais tempo no quintal
🌼 No final tudo ter dado certo


01 dezembro 2017

Estou conhecendo alguém incrível

Imagem do Pinterest
Outro dia me peguei enfeitando-me toda, sem motivo especial. Era fim de tarde, após o banho do fim de um dia exaustivo e meus olhos brilhavam como faísca de uma fogueira em São João.

Me sentia flor, sorri para o espelho, suspirei. Queria estar linda e estava realmente. Sem batom ou lingerie nova, estava eu com um dos meus trajes de casa: camiseta de malha e uma saia de tecido muito leve, porém esbanjava um tipo de beleza da qual não se pode ver com os olhos.

O motivo de tal entusiasmo era o vislumbre por alguém que eu estava conhecendo melhor um dia no trem, no caminho para a capital. Enquanto mirava a paisagem ao redor da estrada de ferro, esse alguém estava comigo o tempo inteiro, respirava leve e tinha o olhar voltado para dentro. Dentro da minha alma.

Abri minha bolsa, esse alguém apareceu em imagem dentro dela, o mesmo olhar que vê o que ninguém mais ali via. Segurando as pontas, acolhendo-me por inteira, esse alguém me cobria de gratidão por estar ali e por ter suportado todo o caminho de rochas e flores por onde havia passado. 

As flores pareciam desmanchar na minha mão, de tanto amor que senti por esse alguém. Antes eu não notava, achava que precisava apenas existir, mas agora esse amor me faz seguir mais forte, me perdoar e me refazer.

Peguei a imagem da bolsa. Estampava uma carteira de identidade. Antes eu não gostava de como o cabelo saiu na foto e como o meio sorriso parecia estranho, mas hoje não reparo. O amor torna tudo mais bonito e leve. E não era uma identidade qualquer. Pertence ao meu alguém.

É minha identidade e esse alguém sou eu. Descobri no trem o real valor da palavra solitude, quando antes de sair eu achava ser solidão. Não sentia falta de mais nada quando me concentrei em me ouvir por dentro. 

Me abracei em um cumprimento espiritual, enquanto fechava os olhos afetados pelo afeto do abraço do Sol, que também fez questão de participar desse momento de júbilo pessoal. Sorri quando vi pela janela que chagara ao meu destino. E ele seria fabuloso.